O homem e o gato

30May11

O homem acordou domingo de manhã logo cedo. Tomou banho, vestiu-se e decidiu ir até a padaria da esquina para tomar um café. Saiu de sua casa, onde morava sozinho, em direção à rua. Viu um gato preto e sujo parado ao lado do portão e desejou que ele não entrasse em sua casa atrás de comida.

Enquanto andava na calçada, sentiu uma presença atrás de si. Ao olhar para trás, viu que o gato preto o seguia. Virou-se e mandou o gato ir embora. Fez barulhos e simulou chutes para assustá-lo, mas o gato permaneceu imóvel, olhando para ele com olhos indagadores. Encheu o saco e continuou andando. O gato seguia poucos passos atrás.

Na padaria, pediu um café e uma torrada. Perguntou como estava a garçonete, tentando parecer simpático, mas sabia que todos o achavam estranho. Se sentiu ainda mais estranho ao perceber que o gato estava sentado do lado de fora da padaria, ao lado da porta, olhando para ele.

Passeou sozinho pela cidade, andando à esmo, arrastando a sola dos tênis pelas ruas vazias. Não conversou com ninguém, não encontrou nenhum conhecido. Tomou um sorvete sozinho no banco sujo do parque e, quando começou a escurecer, andou em direção à casa. Chegou exausto, embora não houvesse feito nenhum esforço. Deitou em sua cama cansado e ficou horas olhando para o teto imaginando o porquê daquele gato preto tê-lo seguido pela cidade inteira, parando apenas no portão da casa. Teve vontade de se levantar e ir verificar se o gato estava lá fora, ainda ao lado do portão.

No dia seguinte, acordou bem cedo para trabalhar. Arrumou-se com pressa e saiu rápido para não perder o ônibus. Quase não percebeu aquele vulto preto correndo atrás dele em direção à parada. Mais uma vez, virou-se e encarou o gato. Tentou assustá-lo e mandou ele parar de segui-lo. As pessoas que passavam o olhavam curiosas. Um homem no meio da rua discutindo com um gato. Percebeu a ridicularidade da situação e deixou o gato fazer o que bem entendesse. Mais uma vez foi seguido o dia inteiro por aquele gato sujo e estranho.

O gato o deixou na porta do trabalho e, quando saiu à 18h, ele ainda estava lá à sua espera. Ficou esperando, também, na porta da padaria, quando parou para comprar pão. Já era o segundo dia que era seguido por aquele gato e o homem estava começando a ficar preocupado. Em casa, decidiu lavar toda a sua roupa. Talvez estivesse fedendo e por isso o gato o estava seguindo. Procurou também por comida nos bolsos das calças e bermuda, mas não havia nada lá. Ao se deitar para dormir, mais uma vez ficou pensando no gato e na razão pela qual estava o seguindo.

E assim seguiram os próximos dias. Às 6 horas saía para trabalhar e lá estava o gato preto o esperando. E a perseguição continuava pelo dia inteiro. Mesmo quando tomava o ônibus, o gato conseguia o acompanhar por causa do trânsito lento. O homem sentia um misto de curiosidade, medo e ansiedade com aquele felino estranho e sua obsessão por ele. Todas as suas tentativas de assustar o gato eram em vão. Ele parecia perceber que o homem não o machucaria de verdade e ignorava seus avanços.

Lá pela quinta-feira, o homem já estava acostumado com aquela presença ao seu lado para onde ia. Nem ligava mais para as pessoas que o ficavam encarando, quando o gato ficava esperando por ele em todo canto onde ia.

No sábado, o homem acordou mais tarde, já que não trabalhava. Estava tendo um sonho gostoso, com uma namorada que não existia e um amor que não se podia descrever. Foi acordado por um barulho estranho. Parecia uma mistura de bebê chorando e unhas arranhando uma lousa de giz. Levantou-se rapidamente e foi até a porta da frente. Quando abriu, viu o gato preto parado bem à sua porta e percebeu que a parte de baixo da porta estava toda arranhada.

“Pára! Vá embora! Me deixe em paz!”, gritou o homem e bateu a porta na cara do gato. Infelizmente, isso não pareceu assustar o gato, que continuou miando e arranhando a porta da frente.

O homem se vestiu rapidamente e saiu de casa apressado querendo se livrar daquele gato. O gato o seguiu até a parada de ônibus. Quando o ônibus chegou, o homem subiu e desejou ir até a parada mais longe, só para se livrar daquele gato inconveniente. O gato seguiu o ônibus por muitas quadras, mas quando chegou na avenida principal, não conseguiu acompanha-lo. O homem observou o gato parando na esquina e ficando cada vez mais longe da sua vista. Ficou feliz. Sorriu um sorriso mentiroso.

Passou o dia passeando de ônibus pela cidade, feliz apenas em ficar longe do gato. Mais uma vez, não encontrou ninguém conhecido, não conversou com ninguém, nem tinha dinheiro para comprar nada já que tudo foi usado para pagar as passagens. No final do dia, estava com as costas doendo por causa do balançar do ônibus. Já estava escurecendo, então tomou o último ônibus do dia, em direção à casa.

Na viagem de volta, só conseguia pensar naquele gato e onde ele estaria agora. Sua pergunta foi rapidamente respondida, quando o homem ia passando pela última esquina onde havia visto o gato e percebeu que ele continuava ali, como se o tempo não houvesse passado. Quando o ônibus passou daquele ponto, viu que o gato se virou e começou a correr atrás. Ele não acreditava! Como será que o gato sabia que ele estava lá?

Na parada de sua casa, o homem desceu e deu de cara com o gato. Xingou-o rapidamente e correu em direção a sua casa, o gato bem vinha logo atrás. Entrou pela porta da frente e a fechou com força. O gato começou, novamente, a arranhar e miar alto. Uma raiva inexplicável se abateu sobre o homem. Abriu a porta da frente e gritou com o gato. Disse que o deixasse em paz, que fosse importunar outra pessoa, que não o queria por perto, que ele era feio, preto, sujo e fedorento e que ninguém jamais o iria deixar entrar em sua casa. O gato deu alguns passos para trás e se deitou na grama da casa. O homem pareceu satisfeito com a reação e voltou para casa. Tomou um banho rápido, trocou de roupa e se deitou na cama.

Ficou horas acordado, olhando para o teto. Sentiu-se só, triste, perdido. Não tinha amigos, nem namorada, nem família.  Não tinha vida. Ás 2h da manhã, o barulho começou na porta. Mas, desta vez, mais baixo. Talvez o gato estivesse cansado. Talvez desistisse em breve.

O homem se levantou e foi até a porta da frente. Ao abrir, viu o gato parado do lado de fora, olhando para ele. Ficaram se encarando por alguns momentos, quase sem piscar. O homem, enfim, perguntou:

“O que você quer? Por que está fazendo isso comigo?”

O gato virou a cabeça um pouco de lado, como se estivesse pensando, endireitou-se e respondeu:

“Eu também estou só no mundo. Não tenho família, nem amigos, nem namorada. Não tenho onde morar, nem lugar para onde ir. Não tenho emprego, nem férias, nem salário. Não tenho um teto sobre minha cabeça, nem uma cama para deitar. Não tenho uma mesa para fazer uma refeição, sequer uma geladeira para guardar comida. Não tenho dinheiro. Não tenho felicidade, nem alegria, nem sorrisos. Já não sinto mais frio, nem calor, nem tristeza, nem raiva. Me tornei indiferente. O mundo não é meu amigo. Muito menos a vida. Sou muito parecidos.”

O homem não acreditava no que estava escutando. Teve vontade de bater a porta e correr para se esconder debaixo da cama, mas não conseguia se mexer. O gato continuou:

“Não quero casa, nem comida, nem dinheiro. Não preciso que me dê carinho ou amor, pois nunca os conheci e não sinto falta. Também não tenho nada para lhe dar. Meu conselhos e sugestões não lhe serviriam de nada. Meus conhecimentos e experiências não lhe fariam nenhuma diferença. Não tenho nada a lhe oferecer, a não ser minha companhia. É isso que venho tentando lhe mostrar. Que posso fazer companhia sempre que quiser e não terá que me ver como um fardo a carregar, pois somos iguais. Então, é isso. Se quiser, posso ser seu amigo. Mas, se não, irei embora hoje mesmo e você jamais me verá novamente.”

O homem o olhava incrédulo. Demorou para que as palavras do gato fizessem sentido para ele. Aos poucos, começou a compreender tudo o que havia acontecido e chorou um choro baixo e sincero.

Abriu mais porta e saiu do meio, para o gato poder entrar. Caminharam juntos até o quarto do homem, que se deitou novamente em sua cama. O gato se aninhou no tapete que ficava ao lado.  Ambos dormiram um sono tranquilo e os sonhos daquela noite não foram tristes. Nem os das noites que se seguiriam, por muitos e muitos anos.



3 Responses to “O homem e o gato”

  1. 1 Deborah Pinto Fernandes

    Para de me fazer chorar!!

  2. 2 4zy

    Excelente texto, me faz pensar muito. Não diria aprender, mas entender muitas coisas.


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