A Cama

10Aug13

Passou por uma loja de colchões e viu que uma cama de casal estava custando R$ 1.500,00. Achou um absurdo. Praguejou, tentou xingar o dono de capitalista pela janela do carro e seguiu em frente.

Acordamos na cama. Pelo menos, quando lembramos de adormecer nela. O despertador toca, acionamos o snooze e nos aninhamos entre os travesseiros por mais 5 minutos. As vezes, temos mais de um, colocamos um entre os joelhos, para ficar mais aconchegante, ou então o agarramos, como se fosse nosso porto seguro.

No verão, durante a noite e madrugada, o clima reveza entre frio e quente. Nos reviramos o tempo inteiro, tentando encontrar a temperatura perfeita debaixo do lençol. Vira para um lado, para o outro. Descobrimos os braços, depois as pernas. Parece que a posição perfeita é sempre aquela, todos cobertos, com só uma perna do lado de fora. 

No inverno, colocamos um cobertor de lá, ou um de algodão acolchoado, e parece que a cama fica tão mais macia e confortável assim. A cama é sempre mais convidativa no inverno. Levantamos os pés para trazer o cobertor para debaixo das pernas e nos reviramos para ficarmos completamente cobertos, cada pedaço de pele sendo tocado pelas várias camadas de calor. Nesses dias, acionamos o snooze pelo menos umas 5 vezes antes de nos levantarmos.

Quando crianças, é na cama que nossos pais leem para nós, nossas cabeças encostadas em seu colo, com o olhar de admiração, seguido de um sono profundo e tranquilo. É lá onde acordamos na madrugada chorando, depois de um pesadelo, gritando pela mamãe ou pelo papai. Os dois vem correndo nos proteger, nos pegam nos braços e nos carregam para dormir em sua cama, sempre no meio, onde nos sentimos protegidos e amparados por todos os lados.

Na adolescência, nós meninas nos deitamos de bruços para escrever nossos segredos mais profundos em nossos diários, apoiadas no travesseiro. Passamos horas deitadas, brincando com os muitos enfeites da cama, enquanto ouvimos as fofocas das amigas no telefone e contamos nossas novidades. É na cama onde os meninos escutam os primeiros CDs, que vão formar sua cultural musical de vida e, é claro, as também intermináveis conversas ao telefone com os amigos.

E então crescemos, e as coisas vão acontecendo. Temos filhos, amamentamos na cama, de madrugada, cansadas por tantas horas sem dormir, mas satisfeitas. Nos aninhamos ao nosso marido, dormimos de conchinha, ou então cada um para o seu lado, o que for mais confortável. Na cama acontecem as discussões de fim de dia e é nela em que há a reconciliação.

É na cama onde conhecemos os grandes prazeres da vida. Descobrimos o sexo e suas milhares formas. Descobrimos homens e mulheres e seus segredos físicos e psicológicos mais íntimos. Nos apaixonamos na cama. Passamos horas abraçados com um outro, acariciando, beijando, dizendo os “eu te amos” que sempre saem com mais facilidade nessa hora. Na cama, também dizemos o adeus. Conhecemos o desespero naquela hora precisa em que a pessoa querida se levanta e sabemos que ela jamais voltará a deitar novamente.

É na cama onde choramos nossas mágoas e encharcamos nossos travesseiros com as misérias de nossas lágrimas. É onde conhecemos o mais profundo dos desesperos e onde nos permitimos desabar, longe dos olhares alheios. Nos contorcemos de uma dor que não existe, tentamos tapar o som do choro com os lençóis. A cama é nossa âncora. 

E também é lá onde fazemos as pazes com nos mesmos. Quando nos deitamos um dia e percebemos que ela já não nos traz tristezas, apenas aquela velha sensação de proteção que já conhecíamos. É lá onde agradecemos a Deus – ou a quem quer que seja- pela nossa vida, pelas nossas conquistas e nossas vitórias. É onde rezamos ou cantamos uma música, antes de dormir. É onde lemos aqueles livros que nos acompanham a vida inteira.

Na cama. É lá onde toda nossa vida se desenrola, sem mentiras, sem máscaras. É onde nascemos e onde morremos. É onde vivemos.

Ao meu ver, R$ 1.500,00 não paga nem o primeiro parágrafo. 

Agora, com licença, vou ali me deitar.


O que eu quero ser quando crescer? O que eu quero ser? O que eu quero? O quê?

Tem gente que sonha em construir um balão. Viajar pelo mundo ou até o interior. Tem gente que quer curar o câncer ou a AIDs e tem gente que quer se livrar da miopia. Tem uns que pensam em jogar na seleção na Copa do Mundo e outros que desejam saúde o suficiente para bater a pelada do sábado. Tem gente que queria dançar igual a Michael Jackson e outros que na pista de dança, querem só se soltar. Tem gente que quer pilotar aviões ou correr na Fórmula 1, outros querem apenas poder pagar viagem em primeira classe ou trocar o carro velho por um do ano.

Tem gente que sonha em ter 5 filhos, tem gente que se contenta com os milhares de sobrinhos. Alguns querem ficar ricos, outros queriam saber economizar. Tem gente que queria nadar nas Olimpíadas, outros queriam ver o mar pela primeira vez. Tem gente que quer viver até os 100 anos, outros rezam para que seus amigos e familiares vivam para sempre. Tem gente que queria ter milhares de amigos, outros já se cansam de redes sociais. Tem gente que não quer nada e tem gente pra tudo.

Tem gente que queria se sentir querido, outros tem medo de receber abraços. Tem gente que queria aprender a dizer eu te amo, outros precisam aprender a controlar tanta declaração. Tem gente que sonha em ter o casamento do século, outros só queriam ouvir o pedido pela primeira vez. Tem gente que quer ser grande, tem gente que sonha pequeno. Tem gente que quer crescer, tem gente que nunca irá.

Quando eu crescer, eu quero. E só.


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Depression is a bitch.

A vida é cheia de percalços. Crescemos, viramos adolescentes, fazemos besteira, entramos na faculdade, nos formamos e entramos para o “mercado”. Nesse ínterim, nos relacionamos, fazemos novas amizades, aprendemos um novo idioma, viajamos, nos apaixonamos. A vida parece que não acaba nunca. Tudo parece simples.

Mas, é a vida. Somos seres humanos e temos mais sensações e pensamentos do que horas em um só dia. As coisas acumulam, empregos se perdem, namorados se vão, amigos se distanciam. A cabeça colapsa e passamos dias e mais dias apanhando os pedaços, tentando reconstruí-la ao menos de forma a parecermos e nos sentirmos mais normais.

É a crise dos 20 e tantos anos. Quando percebemos que, finalmente, estamos deixando a juventude para trás e nos tornando adultos de verdade. Eu mesma me tornei adulta aos 24 anos, quando Noah nasceu. Mas, na verdade, a vida me tornou adulta, mas a minha cabeça continuava de adolescente. Atitudes de adolescentes, pensamentos de adolescentes. Um não combina com o outro. As sensações de juventude não combinam com a vida de adulto. É aí que se instala a crise. Quando você não consegue entender porque não se satisfaz com a rotina do dia-a-dia, com a rotina do trabalho, do relacionamento.

Foi a melhor coisa que já aconteceu na minha vida. É uma merda, na verdade. A minha crise se instalou em um “estado depressivo maior”. A velha depressão. E não existe nesse mundo sensação pior do que incapacidade, tristeza, morbidez, culpa, tudo junto. Mas, me tornou adulta. Me fez ver que o mundo não é algo que eu posso controlar, que precisamos de um pouco de controle e rotina em nossas vidas. Que precisamos dar mais atenção e importância às pessoas que estão próximas a nós.

A depressão me fez vê que não podemos controlar os sentimentos, nem os nossos nem os dos outros. Que não temos controle sobre absolutamente nada, que uma hora tudo está perfeito e, horas depois, tudo se desmorona.

Eu entendo até as pessoas que acham que esse sentimento nunca vai passar. É parte do transtorno. Eu ainda tenho sorte por ter uma cabeça mais consciente, mais racional. Eu sei que passa. E que, por pior que seja agora, eu posso me tornar uma pessoa mais forte, mais viva, mais corajosa e mais preparada para enfrentar o mundo depois disso tudo. Nada prepara você tanto para o resto da sua vida como um momento de desilusão completa. E ainda melhor que aconteça tudo ao mesmo tempo: perda de emprego, perda de namorado. Põe tudo em perspectiva.

Decidi escrever sobre o que estou passando porque sei que muitas pessoas passam por isso sozinhas. Vi agora um comentário de uma pessoa em um post sobre a minha gravidez. A pessoa postou há mais de um ano e só fui ver agora. Ela dizia que estava grávida e pensando em tirar a própria vida, porque não tinha coragem de enfrentar a situação. Essas pessoas não tem com quem conversar, tem medo de procurar ajuda. As vezes, nem sabem que pode melhorar, que a vida tem um jeito de resolver os problemas e fazer tudo melhor. Espero que hoje essa menina e seu filho estejam bem. Pena que não posso falar com ela para perguntar. Espero que eu fique bem também.

Sigo apanhando os pedaços da minha cabeça, que continuam espalhados no chão. Mas, sigo mais forte que nunca. Determinada. Vou vencer e serei feliz. Há coisa melhor no mundo?


“Stars shining bright above you,
Night breezes seem to whisper ‘I love you’,
Birds singing in the sycamore trees,
Dream a little dream of me.”


O homem acordou domingo de manhã logo cedo. Tomou banho, vestiu-se e decidiu ir até a padaria da esquina para tomar um café. Saiu de sua casa, onde morava sozinho, em direção à rua. Viu um gato preto e sujo parado ao lado do portão e desejou que ele não entrasse em sua casa atrás de comida.

Enquanto andava na calçada, sentiu uma presença atrás de si. Ao olhar para trás, viu que o gato preto o seguia. Virou-se e mandou o gato ir embora. Fez barulhos e simulou chutes para assustá-lo, mas o gato permaneceu imóvel, olhando para ele com olhos indagadores. Encheu o saco e continuou andando. O gato seguia poucos passos atrás.

Na padaria, pediu um café e uma torrada. Perguntou como estava a garçonete, tentando parecer simpático, mas sabia que todos o achavam estranho. Se sentiu ainda mais estranho ao perceber que o gato estava sentado do lado de fora da padaria, ao lado da porta, olhando para ele.

Passeou sozinho pela cidade, andando à esmo, arrastando a sola dos tênis pelas ruas vazias. Não conversou com ninguém, não encontrou nenhum conhecido. Tomou um sorvete sozinho no banco sujo do parque e, quando começou a escurecer, andou em direção à casa. Chegou exausto, embora não houvesse feito nenhum esforço. Deitou em sua cama cansado e ficou horas olhando para o teto imaginando o porquê daquele gato preto tê-lo seguido pela cidade inteira, parando apenas no portão da casa. Teve vontade de se levantar e ir verificar se o gato estava lá fora, ainda ao lado do portão.

No dia seguinte, acordou bem cedo para trabalhar. Arrumou-se com pressa e saiu rápido para não perder o ônibus. Quase não percebeu aquele vulto preto correndo atrás dele em direção à parada. Mais uma vez, virou-se e encarou o gato. Tentou assustá-lo e mandou ele parar de segui-lo. As pessoas que passavam o olhavam curiosas. Um homem no meio da rua discutindo com um gato. Percebeu a ridicularidade da situação e deixou o gato fazer o que bem entendesse. Mais uma vez foi seguido o dia inteiro por aquele gato sujo e estranho.

O gato o deixou na porta do trabalho e, quando saiu à 18h, ele ainda estava lá à sua espera. Ficou esperando, também, na porta da padaria, quando parou para comprar pão. Já era o segundo dia que era seguido por aquele gato e o homem estava começando a ficar preocupado. Em casa, decidiu lavar toda a sua roupa. Talvez estivesse fedendo e por isso o gato o estava seguindo. Procurou também por comida nos bolsos das calças e bermuda, mas não havia nada lá. Ao se deitar para dormir, mais uma vez ficou pensando no gato e na razão pela qual estava o seguindo.

E assim seguiram os próximos dias. Às 6 horas saía para trabalhar e lá estava o gato preto o esperando. E a perseguição continuava pelo dia inteiro. Mesmo quando tomava o ônibus, o gato conseguia o acompanhar por causa do trânsito lento. O homem sentia um misto de curiosidade, medo e ansiedade com aquele felino estranho e sua obsessão por ele. Todas as suas tentativas de assustar o gato eram em vão. Ele parecia perceber que o homem não o machucaria de verdade e ignorava seus avanços.

Lá pela quinta-feira, o homem já estava acostumado com aquela presença ao seu lado para onde ia. Nem ligava mais para as pessoas que o ficavam encarando, quando o gato ficava esperando por ele em todo canto onde ia.

No sábado, o homem acordou mais tarde, já que não trabalhava. Estava tendo um sonho gostoso, com uma namorada que não existia e um amor que não se podia descrever. Foi acordado por um barulho estranho. Parecia uma mistura de bebê chorando e unhas arranhando uma lousa de giz. Levantou-se rapidamente e foi até a porta da frente. Quando abriu, viu o gato preto parado bem à sua porta e percebeu que a parte de baixo da porta estava toda arranhada.

“Pára! Vá embora! Me deixe em paz!”, gritou o homem e bateu a porta na cara do gato. Infelizmente, isso não pareceu assustar o gato, que continuou miando e arranhando a porta da frente.

O homem se vestiu rapidamente e saiu de casa apressado querendo se livrar daquele gato. O gato o seguiu até a parada de ônibus. Quando o ônibus chegou, o homem subiu e desejou ir até a parada mais longe, só para se livrar daquele gato inconveniente. O gato seguiu o ônibus por muitas quadras, mas quando chegou na avenida principal, não conseguiu acompanha-lo. O homem observou o gato parando na esquina e ficando cada vez mais longe da sua vista. Ficou feliz. Sorriu um sorriso mentiroso.

Passou o dia passeando de ônibus pela cidade, feliz apenas em ficar longe do gato. Mais uma vez, não encontrou ninguém conhecido, não conversou com ninguém, nem tinha dinheiro para comprar nada já que tudo foi usado para pagar as passagens. No final do dia, estava com as costas doendo por causa do balançar do ônibus. Já estava escurecendo, então tomou o último ônibus do dia, em direção à casa.

Na viagem de volta, só conseguia pensar naquele gato e onde ele estaria agora. Sua pergunta foi rapidamente respondida, quando o homem ia passando pela última esquina onde havia visto o gato e percebeu que ele continuava ali, como se o tempo não houvesse passado. Quando o ônibus passou daquele ponto, viu que o gato se virou e começou a correr atrás. Ele não acreditava! Como será que o gato sabia que ele estava lá?

Na parada de sua casa, o homem desceu e deu de cara com o gato. Xingou-o rapidamente e correu em direção a sua casa, o gato bem vinha logo atrás. Entrou pela porta da frente e a fechou com força. O gato começou, novamente, a arranhar e miar alto. Uma raiva inexplicável se abateu sobre o homem. Abriu a porta da frente e gritou com o gato. Disse que o deixasse em paz, que fosse importunar outra pessoa, que não o queria por perto, que ele era feio, preto, sujo e fedorento e que ninguém jamais o iria deixar entrar em sua casa. O gato deu alguns passos para trás e se deitou na grama da casa. O homem pareceu satisfeito com a reação e voltou para casa. Tomou um banho rápido, trocou de roupa e se deitou na cama.

Ficou horas acordado, olhando para o teto. Sentiu-se só, triste, perdido. Não tinha amigos, nem namorada, nem família.  Não tinha vida. Ás 2h da manhã, o barulho começou na porta. Mas, desta vez, mais baixo. Talvez o gato estivesse cansado. Talvez desistisse em breve.

O homem se levantou e foi até a porta da frente. Ao abrir, viu o gato parado do lado de fora, olhando para ele. Ficaram se encarando por alguns momentos, quase sem piscar. O homem, enfim, perguntou:

“O que você quer? Por que está fazendo isso comigo?”

O gato virou a cabeça um pouco de lado, como se estivesse pensando, endireitou-se e respondeu:

“Eu também estou só no mundo. Não tenho família, nem amigos, nem namorada. Não tenho onde morar, nem lugar para onde ir. Não tenho emprego, nem férias, nem salário. Não tenho um teto sobre minha cabeça, nem uma cama para deitar. Não tenho uma mesa para fazer uma refeição, sequer uma geladeira para guardar comida. Não tenho dinheiro. Não tenho felicidade, nem alegria, nem sorrisos. Já não sinto mais frio, nem calor, nem tristeza, nem raiva. Me tornei indiferente. O mundo não é meu amigo. Muito menos a vida. Sou muito parecidos.”

O homem não acreditava no que estava escutando. Teve vontade de bater a porta e correr para se esconder debaixo da cama, mas não conseguia se mexer. O gato continuou:

“Não quero casa, nem comida, nem dinheiro. Não preciso que me dê carinho ou amor, pois nunca os conheci e não sinto falta. Também não tenho nada para lhe dar. Meu conselhos e sugestões não lhe serviriam de nada. Meus conhecimentos e experiências não lhe fariam nenhuma diferença. Não tenho nada a lhe oferecer, a não ser minha companhia. É isso que venho tentando lhe mostrar. Que posso fazer companhia sempre que quiser e não terá que me ver como um fardo a carregar, pois somos iguais. Então, é isso. Se quiser, posso ser seu amigo. Mas, se não, irei embora hoje mesmo e você jamais me verá novamente.”

O homem o olhava incrédulo. Demorou para que as palavras do gato fizessem sentido para ele. Aos poucos, começou a compreender tudo o que havia acontecido e chorou um choro baixo e sincero.

Abriu mais porta e saiu do meio, para o gato poder entrar. Caminharam juntos até o quarto do homem, que se deitou novamente em sua cama. O gato se aninhou no tapete que ficava ao lado.  Ambos dormiram um sono tranquilo e os sonhos daquela noite não foram tristes. Nem os das noites que se seguiriam, por muitos e muitos anos.


1º de abril. Dia da mentira.

Mas, sinceramente, será que é mesmo? A gente já não mente todos os dias? Dizemos que a amiga está mais magra quando não está. Que só tomamos uma cerveja e não 10. Que a família tá bem. Que as contas estão pagas. Eu não saí ontem. Quem é aquele cara do Facebook que fica mandando piadinha pra você? Você me ama mesmo?

Mentimos todos os dias. De pequenas mentiras a mentiras perigosas e prejudiciais. Mentimos sobre nossos ideias, nossa opiniões, nossas vidas, nossos trabalhos, nossos amigos, nossos amores, nossas verdades. Mentimos até sobre nossas mentiras. Mentimos tanto que acabamos acreditando nas mentiras.

Então, porque um dia específico para algo tão usual e corriqueiro? Algo tão ruim e prejudicial? Por que não fazemos diferente? Em vez de passar 1º de abril inventando mais mentiras, fazendo brincadeiras sem graça e celebrando algo que não tem nenhum motivo real para ser celebrado… Por que não falamos a verdade?

Todo 1º de abril vamos falar a verdade. Pelo menos uma. Diga para a amiga que ela está muito gordinha, mas que é linda e com um pouco de exercício ficaria perfeita. Diga que tomou 10 cervejas, porque, de vez em quando, a gente precisa. Diga que a família tá passando por problemas. Não pagamos todas as contas porque estamos quebrados. Saí ontem. Ele é meu ex namorado. Eu te amo.

1º de abril. Dia da verdade.


1.

deixe que ela entre, entre em fusão
que gire e role e caia
da escada do abismo da saia
do meu encalço, meus pés descalços
deixe que ela entre em compressão

deixe que ela entre, entre na minha imaginação
meus caleidoscópios frenéticos de luzes e barulho
que ela venha escalando pulando subindo meu muro
que atravesse meu mar de pensamentos, minha enchente meu tornado de tormentos
deixe que ela entre e sinta a minha paixão

deixe que ela entre, entre em depressão
ao ver meus olhos amargos
inchados molhados e pardos
que ela sinta minha agonia, minha testa suada e fria
deixe que ela entre e pise no meu chão

deixe que ela entre, entre com precisão
que ela atire e acerte na mira
que ela aponte e conte e confira
e me leve com amor, sem frio sem ódio sem dor
deixe que ela entre com razão

deixe que ela entre, entre sem indecisão
que não seja como eu, inconstante
que ela venha com um cheiro marcante
e não se iluda com minhas verdades, que se destroem cedo ou tarde
deixe que ela entre com inspiração

deixe que ela entre, entre com compaixão
que não demore muito lá dentro
não olhe nem repare meu descontentamento
que ela venha e se vá com rapidez, que leve embora minha insensatez
deixe que ela venha com pressão

deixe que ela entre, entre no meu mundo
que ela me conheça e me entenda a fundo
que chore ria sofra ame e saiba tudo
que ela venha com um só objetivo, que ela o cumpra e salve o meu riso
deixe que ela entre e me leve junto.

 

7 de abril de 2008.

[L.F.]